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JÚNIOR E ANA formavam um casal jovem, ambos profissionais emergentes, com idade na faixa dos 30 anos. Conheceram-se durante as férias na pequena cidade do interior, onde morava a famÃlia de Ana. Foi amor à primeira vista! Namoraram por 10 meses e logo se casaram, pois Júnior vivia sozinho na capital e precisava muito de alguém para estar a seu lado. Logo começaram as brigas, especialmente por questões de ciúmes um do outro.
Mudaram-se para uma cidade pequena em outro estado e ali iniciaram um trabalho em uma empresa familiar, prosperaram economicamente, tornaram-se pais e viviam ocupados com a criação dos filhos e as novas atividades laborais. Passados alguns anos, Júnior começou a ter dificuldades com os parentes que administravam a empresa. Ele e Ana resolveram mudar-se novamente, agora para uma capital em outro estado, e ali começar vida nova. Nesta nova cidade tiveram duas experiências muito marcantes. A primeira foi positiva: encontraram uma nova perspectiva de vida por meio da fé e logo ingressaram em um grupo de cristãos que os recebeu muito bem, depois passando a integrar uma igreja cristã. A segunda experiência foi negativa: os negócios na capital não deram certo, a empresa deles faliu e tiveram de recomeçar a vida financeira praticamente do ponto zero. Com a tensão da pressão econômica, as queixas de ciúmes recomeçaram, embora pouco intensas, pois estavam sempre se aconselhando com os irmãos da igreja e esforçavam-se para seguir os novos princÃpios de fé que haviam recentemente abraçado. Cada qual conseguiu um emprego e a famÃlia tinha o suficiente para sua manutenção básica. Ana abriu um negócio próprio, com o apoio do marido, e seguia prosperando até que resolveu fazer um curso superior noturno. Foi a gota d'água! Júnior então passou a ter explosões irracionais de ciúmes e um controle desmedido sobre a vida de Ana. As brigas passaram a acontecer por qualquer coisa e em qualquer lugar. Ana ressentia-se quando as brigas ocorriam diante de outras pessoas. Atingiram um ponto em que Júnior chegava a quebrar as coisas em casa e deixava Ana muito preocupada com a possibilidade de ele vir a se matar. Quando este jovem casal veio me procurar para um aconselhamento, a primeira pergunta que me veio à mente foi: "O que levou estas duas pessoas bonitas, saudáveis, inteligentes, a chegarem a tal ponto de destruição do relacionamento?" Não havia nada que pudesse ter comprometido de forma mais séria o casamento. Nenhum dos dois havia sido infiel. Júnior era um bom pai, trabalhador, não dado a nenhum vÃcio, era cooperativo nas atividades domésticas, não deixando sobrecargas para Ana. Ela era uma mãe dedicada que conciliava o trabalho, os estudos e as obrigações com a casa sem deixar a famÃlia em segundo plano. Tudo parecia no seu lugar, não fossem as crises de ciúmes de ambos. A resposta para esta questão é: eles nunca haviam se casado! Não que eles não tenham feito a cerimônia civil e religiosa como manda o figurino. Não se trata das formalidades do casamento, mas, sim, da essência que envolve este ato. Vamos refletir um pouco sobre isso. Quando um adolescente torna-se adulto, uma de suas principais tarefas dentro do ciclo da vida é tornar-se plenamente autônomo e buscar uma pessoa para partilhar a jornada da vida. Do ponto de vista teológico, a partir da visão hebraico-cristã, isso está declarado na passagem de Gênesis 2.24: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne". Entendo que há uma sabedoria milenar na seqüência de frases estabelecidas aqui. Em primeiro lugar é necessário deixar pai e mãe. Este deixar significa alcançar uma plena autonomia e responsabilidade sobre si mesmo, de forma que se possa enfrentar as adversidades da vida de maneira equilibrada e responsável. Há um equÃvoco muito grande em se pensar que deixar pai e mãe significa simplesmente mudar de local de residência ou tornar- se independente economicamente por meio de um trabalho que provenha sustento suficiente para a estruturação material de um novo lar. Existem implicações muito mais sérias e profundas do que isso. É por isso que eu afirmo para muitos casais que, para se casarem, em primeiro lugar eles precisam divorciar-se emocionalmentedos pais! Aliás, esse princÃpio milenar expresso já nas primeiras páginas da BÃblia vem sendo repetido inúmeras vezes por estudiosos da famÃlia nos dias de hoje, mesmo por aqueles que não são cristãos e que talvez nunca tenham aberto uma BÃblia. Eles sabem que essa verdade estabelecida por Deus é permanente e imprescindÃvel para a saúde emocional do casal e da famÃlia. Joel Bergman, um desses estudiosos, declara: Você só pode estar casado com uma pessoa de cada vez! [...] Essa declaração significa que só podemos estar casados com uma pessoa de cada vez e que os cônjuges estão infelizes porque não podem estar casados um com o outro, porque pelo menos um dos parceiros ainda está casado com um dos pais. O que quero dizer com este divórcio emocional não é uma ruptura total de relacionamentos, mas a busca de uma autonomia em relação ao lar paterno. O que acontecia com Ana e Júnior é que ambos estavam ainda emocionalmente apegados aos pais e não conseguiam criar um vÃnculo significativo e profundo um com o outro. Nem sempre esse processo de busca de autonomia é fácil, especialmente quando um dos pais (em geral a mãe) é demasiadamente protetor e tem estruturada toda a razão de sua vida em função dos filhos. Isso dificulta muito o desapegar-se e permitir que o filho ou a filha siga o seu caminho de forma autônoma, fazendo suas próprias escolhas e arcando com suas próprias responsabilidades. Conforme Maldonado, O terceiro momento, no qual as famÃlias parecem ser mais vulneráveis que nunca, é quando os filhos se transformam em adultos e estão a ponto de abandonar a casa paterna. Isso põe à prova a relação dos pais. Se estes têm desenvolvido uma interação saudável, a crise do ninho vazio pode ser passageira. Se os pais, pelo contrário, têm colocado o foco principal na criação dos  filhos, descuidando de sua relação como casal, é possÃvel que o mais inteligente, sensÃvel e leal dos filhos tenha dificuldade de emancipar-se e permaneça em casa, como guardião de seus progenitores. Os pais devem facilitar a autonomia dos filhos, evitando interferir na vida deles. Não devem tratar os filhos continuamente como se fossem crianças dependentes. Devem conscientizar-se de que agora os filhos são adultos e que devem tomar decisões por eles mesmos. Os pais devem acreditar que os valores passados aos filhos a respeito da vida serão fortes o suficiente para sustentar as escolhas que eles farão na vida adulta. Creio que muitos pais têm medo de não terem passado valores efetivos para os filhos, e por isso continuam querendo tomar as decisões por eles. Os filhos, por sua vez, devem confiar em que o legado recebido dos pais será efetivo para a tomada de futuras decisões e que serão capazes de enfrentar a vida sozinhos, não precisando recorrer à direção dos pais para todo e qualquer assunto. Pais e filhos devem aprender a relacionar-se como adultos, respeitando a autonomia e a individualidade de cada lar constituÃdo, e permitindo que se desfrute de uma vida independente nos mais vários aspectos. Ana não agia assim. Sempre que precisava tomar uma decisão, em vez de decidir com Júnior, ela logo telefonava para os pais, pedindo a opinião e a direção deles, independentemente se fosse contrária ou não ao que Júnior pensava. Isso o irritava muitÃssimo, a tal ponto que o grande ciúme dele era do relacionamento de Ana com seus pais. Mas havia um outro grande problema envolvido nesse relacionamento. Segundo outro princÃpio da terapia familiar de Bergman, Os parceiros conjugais estão igualmente fundidos ou indiferenciados em relação à s suas respectivas famÃlias de origem [...]. Se um dos parceiros ainda está casado com um dos pais é bastante provável que o outro parceiro também esteja casado com um de seus pais.3 Para se manter um bom equilÃbrio no casamento, os cônjuges procuram sempre ocupar posições simétricas em relação ao outro. Por isso, quando um dos cônjuges ainda está ligado a seus pais, eu sempre levanto a hipótese de que o outro também esteja muito ligado a seus pais. Isso tem se verificado verdadeiro na maioria dos casos a que tenho atendido nesses mais de 20 anos de prática clÃnica. Era verdadeiro no caso de Júnior. Júnior encontrava-se fortemente apegado à sua mãe viúva, que tinha estabelecido com ele um forte vÃnculo de dependência. Em várias crises que Júnior teve com Ana, a mãe dele prontamente o acolheu em casa e providenciou todo o conforto para que fosse minimizada aquela situação de desamparo na qual ele se encontrava. Muitos pais fazem o mesmo! Não bastasse isso, ficava notório que a mãe de Júnior competia freqüentemente com Ana pelo cuidado e pelo afeto do filho. Procurava sutilmente desqualificar os esforços da nora em construir algo positivo na relação com Júnior. Se Ana fazia uma comida especial de que Júnior gostava e isso era comentado com a mãe, esta logo observava: "mas ela conseguiu fazer aquele tempero como eu faço, que você tanto gosta meu filho"? Ou em insinuações do tipo: "Como você anda magro meu filho! Precisa se alimentar melhor...". Numa situação como esta nota-se que o filho não desenvolveu toda sua autonomia e que a primeira coisa na qual ele pensa é que pode voltar ao papel de filho na casa dos pais e que as coisas vão funcionar "como eram antes". E os pais inicialmente facilitam a volta do filho, pois também acreditam que o filho "não tem condições de resolver a situação". Betty Carter e Mônica McGoldrick, em seu clássico livro sobre o ciclo de vida da famÃlia, afirmam que a primeira etapa na constituição da famÃlia é exatamente este processo de autonomização dos jovens adultos solteiros. Segundo as autoras, o principal processo emocional de transição nesta etapa do ciclo vital é o jovem aceitar a responsabilidade emocional e financeira de si mesmo, o que provocaria mudanças no status da famÃlia para o seu desenvolvimento. Estas mudanças, conhecidas como "mudanças de segunda ordem" seriam principalmente:
a) Diferenciar-se em relação à famÃlia de origem; b) Iniciar relações com gente de sua idade; c) Organizar-se no que tange ao trabalho; d) Adquirir independência financeira.
Então o deixar pai e mãe não é tão simples como sair da casa dos pais para um novo local de residência. Implica em toda uma nova postura diante da vida! Deixar pai e mãe significa comprometer-me com o desenvolvimento de uma relação com uma pessoa que, na maioria dos casos, conheço só superficialmente e que é muito diferente de mim em sua forma de pensar e de agir - e vão levar alguns anos até conseguirmos um grau de harmonia que seja plenamente satisfatório para ambos. Tenho certeza de que esta é a principal razão pela qual Deus estabeleceu que o casamento deve ser um vÃnculo para toda a vida - até que a morte nos separe! Um verdadeiro casamento então se inicia com este processo de "divórcio", de busca de autonomia responsável e de um compromisso de construção com o outro, diferente de mim, que não conheço, mas com quem desejo desenvolver o sentimento de afeição que nos vinculou.
(livro: Como se livrar de um mal casamento)
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